terça-feira, 11 de novembro de 2008

Chela e Nossa Senhora do Monte: Água de Beber e de Nadar
































Bebemos água da serra da Chela. Água onde beberam os bois é que não. É assim que os habitantes do Lubango se queixam sobre as condições sanitárias deficientes na cidade. É sempre o mesmo argumento: a urbe cresceu desproporcionada. A população aumentou, as redes de saneamento básico são as mesmas que os portugueses deixaram aptas para uma densidade de 60.000 habitantes enquanto hoje partilham o mesmo espaço e ar 1.078.215 habitantes numa extensão de mais de 79 mil quilómetros quadrados. (vide http://www.mat.gv.ao/portal mat/ ).
Se compararmos a cidade dos anos 60 e 70 com a cidade do séc.XXI poderemos ver as diferenças. Consultem os blogues http://www.pessoalissima.com/Terra/Lubango/Lubango.html e http://angolalubango.com.sapo.pt/fotos_sabandeira.html ou o blog http://www.sanzalangola.com/galeria/album09 com um espólio iconográfico valioso, que inclui arquivo do arquitecto Ludovice (o riscador de muitos monumentos por aqui ) e um repositório emocional saudosista profundo.
Verificamos o crescimento das casas de adobe e zinco, com o telhado seguro por pedras, sustentadas pelos regatos e poços artesanais e cisternas de manivela municipais. Já não nos orientamos apenas pelas quatro ruas principais hoje escortanhadas por ruas secundárias e com a simetria arruinada pela construção popular que nasceu por onde der. Já não existe o eucaliptal com corvos a grasnar por trás do prédio da Acajobel de que me falou uma querida amiga.
Já não existe a rua do Picadeiro por onde as pessoas passeavam ao fim da tarde em convívio. Hoje chama-se Avenida Hoji Ya Henda, mas ainda por aqui continuam a deambular as pessoas, a cruzarem-se, a comprar o abacaxi ou o cogumelo gigante na vendedora de bacia, a ir tomar o café nas pastelarias ou a saborear o sorvete nas gelatarias ou a ir buscar o pão fabuloso – de miolo cheio e côdea estaladiça e macia que se saboreia na alvorada e ao entardecer ainda quentinho com manteiga a derreter. A aquecer as mãos nas «noites frias da Huíla».
A cidade tem vida, esmorecendo a partir das 9h da noite porque não há iluminação pública espalhada por todas as zonas. Poucas casas comerciais continuam abertas depois dessa hora, com excepção de alguns restaurantes e bares. Destes, o mais conhecido é o Kopus Bar cuja entrada é de 1.500 Kz, mas quase sempre só o homem é que paga. Só aqui digo: «Viva o machismo»!
Também já não existe a fonte luminosa mas ainda lá está, e operacional, a Sé e a praça arranjadinha. Aliás, é o único sítio onde se mantém sempre funcional a iluminação pública. É o centro da cidade e onde se situam os edifícios governamentais e institucionais. Convém, não é?
Ainda existe a piscina da Nossa Senhora do Monte, mas não está operacional. Encontra-se em reabilitação, dizem. Pelas fotos do Antigamente lastima-se que não esteja já pronta e disponível, pois se tratava de um espaço de recreio muito apreciado por todas as famílias de Lubango e arredores. Abastecida com água puríssima da serra da Chela, sempre renovada, bordejada por flores e árvores floridas, tapete de relva e arbustos, prancha e trampolim para saltos. Lindo! Ainda hoje nos enche a vista, mais a memória é certo, por vislumbrarmos o que ainda pode voltar a ser.
Nós queremos ir lá espairecer! Ouça-nos a todos senhor novo autarca do Lubango. Devolva-nos esse prazer, esse lugar lúdico e hedónico. Precisamos de descansar alma, espírito e corpo na doce água da Chela de Ph 5,6. A entrada custa menos que a do Grande Hotel ou do Casper’s.


















sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Frutos do Mato: Noncha








Já provei mais um fruto tropical! Chama-se Noncha e pouca gente aqui o aprecia. Ovalado, com uma pele fina amarelada que se rompe para mostrar a polpa da mesma cor. Não se pode trincar, só chupar e debruçado porque é sumarento como a manga e, se não tivermos cuidado, ficamos com nódoas.
A polpa, que arranhamos com os dentes e sugamos com a língua, depois de perder o sumo perante o ataque, ganha uma consistência parecida com uma esponja seca e aveludada. O caroço nem se vê coberto por essa pelagem, e é grosso.
Tive sorte: a minha primeira experiência com a Noncha foi agradável, pois apanhei uma doce e dizem-me que a maior parte das vezes é ácida. Também não gostam dela, os angolanos com quem falei, porque cheira mal. Isso não confirmo porque a minha sinusite filtra algumas fragâncias.
Este fruto amadurece numa árvore alta com copa larga de onde, ocasionalmente cai. Não sei se os colhedores o apanham do chão ou se trepam pelo tronco e ramos. Quem sobe a palmeiras, tem agilidade para todas as outras alturas.

Oshikandela e Omavele







Hummm….Como hei-de descrever o Oshikandela made in Namibia e o Omavele made in Angola. É um lacticínio, similar ao iogurte natural, o primeiro espesso, o segundo mais líquido. Semi-ácido, declinado em várias categorias, das quais a que eu mais gosto é, claro, a Sweet (Doce). A azeda usa-se para misturar no pirão (farinha cozida que acompanha as carnes e os peixes). Há as de sabores a frutos, mas essas ainda não provei.
Uma angolana disse-me que o Omavele, mais líquido, é melhor porque é mais natural, não tem conservantes, é mais fresco e mais puro. E caso passe um pouco do tempo, mas sem inchar o saco, mistura-se leite e fica outra vez bom para nos deliciarmos.
De vez em quando, porque também é forte no trabalho “interno”, lá vou beberricando por gosto, ou para disfarçar as caimbras de alguma fome porque não fiz a alimentação correcta: almoçar antes de sair de casa, por exemplo. Nos dias em que se entra ao início da tarde, também não apetece muito sentar-me à mesa e comer o arroz com feijão, prato mais regular na casa-clausura.
Hoje havia peixe-burro! Mas não estava pronto….ficou para o jantar. De qualquer forma ia saborear aquela posta assada no forno, a que se juntava a couve e o feijão-verde cozido, mais um copo de Diesel (cerveja com coca-cola) e depois só me apeteceria estender-me no sofá.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Bichos, Monstros e Horrores




















À excepção da Barata, perfeitamente reconhecível, algum entomologista me explica que “bichos” são estes que vos mostro? Com o zoom assemelham-se a seres espaciais. De um mundo surreal, com longas antenas e múltiplas patas, asas repentinas, cores refulgentes…a arrepiar-me num nojo, certamente recíproco.
Vivem comigo em casa, no tecto e nas paredes. Dentro e fora. Reconheço o gafanhoto que me fascina, a salamandra que me enternece, o lagarto que me faz rir.
Não consigo fotografar as moscas que me inspiram neuras e instintos assassinos, umas pequeninas e outras cavalares a exibir o seu flamejante verde e o seu rotundo castanho.
Entram pelas janelas abertas porque uma casa sem persianas atabafa com o sol invasor desde a aurora.
Escancaramos as portas e algumas janelas e depois arcamos com as consequências: a de eu dar em serial killer de moscas e mosquitos (pior que o “mata-sete de uma vez”) e chamar um dos homens da casa para dar cabo das baratas. Pois, não temos redes. Pois, detesto baratas mesmo quando elas na agonia se rebolam para cima, estremecendo as tenazes. Por outro lado, fico cheia de pena de as exterminar e custa-me assistir ao sofrimento que causei em cumplicidade. Juro que ouvi uma barata “chorar” e padeci.
As baratas são um animal pré-histórico, o único que resiste a uma bomba atómica, rastejam nos canos, sobretudo os da cozinha e da casa-de-banho, alimentando-se dos nossos restos e das gorduras.
Qualquer desinfestação é complicada, pois apenas se matam os adultos e as crias; permanecem os ninhos…e nascem de novo. O risco: contaminação com febre tifóide uma vez que compartilham com os ratos o mesmo meio-ambiente.
Matar qualquer ser vivo dá mau karma. Existe mesmo uma seita indiana cujos membros se movimentam vagarosamente, numa lentidão exasperante para não pisar nem sequer uma formiga.
Então deixem as moscas pousar incessantemente nos braços, nos cabelos, nas orelhas, nos olhos, nas narinas, no pescoço, nas costas, nas pernas, por baixo da roupa….deixem também os mosquitos picar-nos à vontade e as baratas morder-nos. Extremamente desagradável sobretudo quando queremos concentrar-nos num trabalho e dormir a sono solto e não desejamos adoecer, por exemplo com o famigerado paludismo! Cansa, exaspera…
Agora compreendo porque é que uma amiga da minha avó materna, quando vivia em Moçambique, engoliu sem querer uma mosca. Se não estivermos atentos…São tantas e muito agressivas!
Depois da chuva abunda a vida desta fauna com novos rastejantes e voadores e saltitões.
A minha colcha branca, à noite, fica preta dos mosquitos pequeninos que caiem, fora outros insectos turbulentos, nomeadamente os carochos, as borboletas de traça, as libélulas e os de estado híbrido como as formigas com asas. O meu sentido do tacto está apuradíssimo e mesmo quando é apenas um fio de cabelo a tanger a minha pele eu agito-me toda para impedir a suculência de algum irritante monstro.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Receitas não angolanas: Caçarola de Atum







Ontem cozinhei uma refeição pela primeira vez aqui. Já tinha preparado sobremesas, mas nunca um almoço. Mas apeteceu-me descontrair e criar. Cogitei fazer a Caçarola de Atum. Leva massa de cotovelo, atum de lata, azeitonas pretas, pimento, sopa de cogumelos em pó. Substitui pela sopa de cebola em pó, pois não encontrei a citada. Gostei mais, para mim ficou mais apaladado. Leva ainda cebolas, alho que refoguei com o pimento e as azeitonas descaroçadas. Para a sopa (pus 2 pacotes), junta-se leite e querendo também água. Tem que ficar grossinha. Junta-se este molho ao refogado. Coze-se a massa. Envolve-se tudo.
Vai ao forno polvilhada ou com batata frita esmigalhada de pacote ou pão ralado, por uns minutos.
O que nós não contávamos é que um dos pirexes se partisse com estrondo mal se tirou do aconchegamento. Não era pirex, mas foi vendido como tal. Não aproveitámos nada por causa dos vidros. Ninguém aqui em casa sofre de Pica.
Só nos tentamos com guloseimas.
Acompanhamento: salada de tomate e cebola, cuja terrina foi esfregada com alho, temperada com sal, azeite e vinagre. Beterraba crua temperada do mesmo modo.
Sobremesa: mousse de abacate, com pouco açúcar e ligada com nata fresca; salada de morangos, abacaxi e bananas, aqueles provenientes da Huíla e já docinhos.
Como sempre: cerveja Ngola ou Cuca, que alguns como eu misturam com gasosa Blue, tudo made in Angola.

Colégio das Madres e Casas da Saudade





















As fotografias do post anterior – As raízes – correspondem, a primeira ao Colégio das Madres, ou de Paula Frassinetti, no Lubango. A seguinte representa parte da fachada da antiga Escola Primária da Machiqueira que foi fundada pelo meu avô, um bairro do Lubango. A terceira mostra a entrada da casa construída pelo meu avô para aí viver com a minha avó e filhos, entre os quais o meu pai. O portão de ferro foi colocado há pouco tempo. Vivem aí os descendentes de um casal de velhotes que faleceu.
A M. conhece-os e diz que vai falar com eles para me autorizarem uma visita. O meu receio será o deles: suspeitarem de que irei reclamar a casa. Não é que não tenha pensado nisso, hesito entre o querer e o deixar como está, pois não sei se me sedentarizarei por aqui ou continuarei nómada ou voltarei a mudar de continente. E há vidas que não se recuperam e tempo que não volta para trás na antítese do apelo da famosa canção.
Mas gostava muito de tactear as paredes e pisar o chão do amor e sacrifício dos meus antepassados e de filmar os recantos onde o meu pai e tios brincaram e sonharam a dormir e acordados.
Não é todos os dias que a alguém se dá a possibilidade de coser as pontas soltas do seu destino.
O Colégio Paula Frassinetti, dito das Madres, fica no mesmo quarteirão da casa dos meus avós e mais casas que eles edificaram e alugaram. O terreiro defronte da capela está pejado das árvores mais lindas do Lubango, os frondosos jacarandás. De flores roxas e a dar a sombra merecida para fugir à canícula.
As madres, de vestes alvas, que encantavam a minha tia, já lá não estão, acho eu. O que eu vi foi um outrora grandioso edifício rabiscado por grafitti, com os muros esboroados, os azulejos partidos e as cores empalidecidas. Funciona como escola primária por turnos matutinos e vespertinos com portas que não se fecham e que não vedam a entrada de uma capela que já não ou raramente faz serviço.
Há muito que se espera um restauro, uma reabilitação que tarda porque houve guerra e não era possível pensar nisso. A Igreja tem que zelar pelo seu património, cuidar em devolver um colégio de tantas memórias e vocações à cidade.
No dia em que lá fui, só o rodeei e filmei à volta, com as crianças a pular e a querer aparecer no filme e nas fotos, a cercarem-me, ansiosos por ver as imagens e por me mexer no cabelo. Cada um gosta do que não tem.
O filme é para mostrar à família no Natal e quiçá ao Patriarcado de Lisboa para ver se se interessam pela recuperação.
Todavia, há tanto por recuperar no Lubango, entre casas lindas da arquitectura colonial, as ruas, os novos edifícios que ficaram pelo esqueleto de cimento, as linhas férreas e os itinerários de comboio…Nesta semana já taparam os buracos da estrada do Caminho de Ferro de Lubango ao pé do bairro de Santo António onde vivo. Ficam por encher os que existem no bairro Lucrécia logo a seguir.
Há um novo Governador Civil no Lubango e todos esperam muito dele.

sábado, 1 de novembro de 2008